O médico Éverton da Costa Sagiorato avalia que a cena se repete em farmácias, academias e feeds de rede social. Um pote promete mais energia, outro garante imunidade, um terceiro jura acelerar o metabolismo. A suplementação virou hábito de consumo antes de virar decisão de saúde, e é aí que mora o problema. Comprar cápsula ficou tão fácil que a pergunta essencial quase nunca é feita: esse corpo, especificamente, precisa disso?
Separar o que tem respaldo clínico do que é apenas tendência de mercado exige um filtro que a publicidade não oferece. Grande parte do que se consome em suplementos parte de uma suposição, não de uma necessidade comprovada, e essa diferença muda tudo. Vitamina não é alimento nem é inofensiva por definição. É intervenção, e toda intervenção pede indicação.
O texto a seguir não defende nem condena a suplementação. Ele propõe uma linha divisória: de um lado, o uso que corrige uma falta real; do outro, o consumo que preenche uma expectativa criada por marketing.
O ponto de partida é o exame, não a prateleira
Antes de qualquer cápsula, existe uma pergunta que só o exame responde: há, de fato, uma deficiência? O corpo saudável, com alimentação minimamente variada, costuma obter a maior parte dos nutrientes da comida. A ideia de que todo mundo vive à beira de uma carência silenciosa vende muito, mas não se sustenta na maioria dos casos. Sem dosagem laboratorial, suplementar é apostar às cegas em um problema que talvez nem exista.
Éverton da Costa Sagiorato apresenta que essa inversão é comum. Primeiro se compra o produto, depois se procura a justificativa. O caminho clínico é o oposto: sintoma, exame, interpretação e, só então, se necessário, reposição. Assim sendo, pular etapas transforma cuidado em consumo.
Quando a reposição tem base clínica?
O médico Éverton da Costa Sagiorato elucida que há situações em que suplementar não é modismo, é conduta correta. Deficiência de vitamina D confirmada em exame, comum em quem passa o dia em ambiente fechado, justifica reposição orientada. Vitamina B12 baixa em pessoas com dieta vegetariana estrita ou em idosos com absorção reduzida também tem indicação clara. Ferro em quadros documentados de anemia, ácido fólico na gestação, cálcio em perfis específicos de risco de osteoporose. Nesses casos, a suplementação corrige uma lacuna mensurável e traz benefício real.
Há ainda um grupo intermediário, em que a suplementação faz sentido por antecipação de risco, não por deficiência já instalada. Gestantes, pessoas que passaram por cirurgia bariátrica, quem tem doença que compromete a absorção intestinal. Nesses perfis, esperar o exame despencar seria esperar demais, e a reposição preventiva tem lógica clínica clara. A diferença para o modismo é que aqui existe um motivo fisiológico documentado, não uma promessa genérica.
O excesso também adoece
Existe um limite pouco lembrado: mais nutriente não significa mais saúde. As vitaminas lipossolúveis, como A, D, E e K, se acumulam no organismo e podem chegar a níveis tóxicos quando ingeridas em doses altas por conta própria. Excesso de ferro sobrecarrega o fígado. Doses cavalares de certos compostos estressam os rins. O corpo tem margem, mas não é um depósito infinito.

Tomar vitamina em excesso faz mal?
Pode fazer, sim. Vitaminas que se acumulam no corpo e minerais como ferro atingem níveis prejudiciais quando usados em doses altas sem indicação, sobrecarregando fígado e rins em vez de trazer qualquer ganho. Por isso, a autossuplementação prolongada é um risco silencioso. Em vista disso, o médico Éverton da Costa Sagiorato comenta que a pessoa acredita estar se cuidando enquanto empurra o organismo para um desequilíbrio que só aparece em exame, às vezes tarde. O antídoto é simples: dose e duração definidas por quem interpretou os exames, não por quem leu o rótulo.
O que significa uso racional na prática?
Uso racional não é recusa a suplementos. É colocá-los no lugar certo dentro de uma estratégia de saúde. Significa investigar antes de repor, repor com meta e prazo, reavaliar com novos exames e suspender quando o objetivo foi atingido. Significa também aceitar que, para muita gente, a resposta honesta é que não há o que suplementar, e que o dinheiro renderia mais em uma alimentação melhor e em sono regular.
Éverton da Costa Sagiorato considera que a decisão sobre suplementar deveria ser tão individual quanto uma prescrição de remédio, porque é exatamente disso que se trata. O que serve para um corpo pode ser inútil ou até prejudicial em outro, e nenhuma tendência de mercado substitui essa análise caso a caso. A mesma vitamina que resolve o problema de uma pessoa pode ser apenas gasto supérfluo para o vizinho ao lado, e só o exame de cada um consegue dizer de que lado da linha aquele consumo está.
O que a indústria vende e o que o corpo realmente pede?
A diferença entre necessidade e modismo é a diferença entre uma pergunta respondida e uma expectativa vendida. Um corpo que recebe uma dieta equilibrada, sono suficiente e atividade física resolve sozinho a maior parte das suas demandas nutricionais. A suplementação entra para preencher lacunas reais, comprovadas, não para dar a sensação de controle sobre a própria saúde. Quem começa pelo exame raramente erra. Quem começa pela prateleira quase sempre paga por uma tranquilidade que o próprio prato já oferecia de graça.

