Quase metade das pequenas e médias empresas brasileiras relata dificuldade para acessar crédito, segundo levantamento recente da Serasa Experian. Nesse contexto, Pedro Daniel Magalhães, executivo com atuação em desenvolvimento empresarial e gestão financeira, pondera que boa parte dessa dificuldade nasce de um erro de sequência: buscar o tipo de crédito errado para o momento em que a empresa realmente está.
Cada fase de maturidade de um negócio pede uma fonte de financiamento diferente, e tentar pular etapas costuma sair mais caro do que seguir a ordem natural de acesso ao crédito.
Fase inicial: capital próprio e recursos de quem já confia no negócio
Nos primeiros meses, quando ainda não existe histórico de faturamento nem garantias reais para oferecer, a maior parte do financiamento de uma empresa vem de capital próprio dos sócios, recursos de familiares ou pequenos aportes de conhecidos. Bancos e fundos praticamente não têm como avaliar o risco de um negócio sem operação, então essa fase raramente conta com crédito formal relevante.
Tentar captar dívida bancária nesse estágio resulta em recusa ou em condições muito desfavoráveis, já que o credor não tem base para estimar a capacidade futura de pagamento.
Primeira tração: crédito bancário simples e antecipação de recebíveis
Quando a empresa já tem alguns meses de faturamento e um mínimo de histórico documentado, linhas de capital de giro e antecipação de recebíveis passam a ser acessíveis. Nessa fase, o foco tende a ser resolver descompassos de curto prazo entre o momento da venda e o momento do recebimento, não financiar expansão de longo prazo, informa Pedro Daniel Magalhães.
Empresas que tentam captar valores desproporcionais ao faturamento nessa fase, buscando crescer rápido demais, enfrentam taxas mais altas justamente por pedir mais do que o histórico disponível consegue sustentar. O mesmo vale para prazos: uma linha pensada para cobrir um descompasso de semanas não deveria financiar um investimento que só se paga em anos.
Crescimento acelerado: fundos especializados e dívida sem diluição
Empresas que já demonstram crescimento consistente, mas ainda consomem caixa para se expandir, passam a ter acesso a fundos de recebíveis e a linhas de crédito estruturadas especificamente para negócios em expansão, sem depender apenas do relacionamento bancário tradicional.

Nessa fase, entram em jogo instrumentos que avaliam menos o balanço da empresa e mais a qualidade da operação e das métricas de crescimento, ampliando o acesso a capital sem necessariamente exigir a diluição da participação dos fundadores. É também o momento em que a empresa começa a construir o histórico que vai sustentar negociações futuras em condições melhores.
Maturidade: acesso ao mercado de capitais
Com histórico consolidado e operação mais previsível, a empresa passa a ter condições de acessar instrumentos do mercado de capitais, como debêntures e outras formas de captação direta com investidores institucionais, geralmente com custo mais competitivo do que o crédito bancário tradicional.
Segundo Pedro Magalhães, chegar a essa fase exige preparo, como relatórios financeiros consistentes, governança mínima e histórico documentado, que são pré-requisitos que muitas empresas só constroem depois de anos, o que explica por que poucas conseguem pular direto para esse estágio sem antes passar pelos degraus anteriores.
Por que pular etapas pode sair caro?
Buscar um instrumento sofisticado de captação antes de ter a maturidade financeira que ele exige tende a resultar em negociações mais duras, taxas mais altas ou simplesmente recusa por parte do credor ou investidor. O caminho mais barato, no fim, costuma ser o que respeita a sequência natural de crescimento da empresa.
Reconhecer em qual fase o negócio realmente está, considera Pedro Daniel Magalhães, evita que a empresa gaste energia e reputação buscando um crédito que ainda não está preparada para sustentar.

