Endividamento recorde no setor de hospedagem e alimentação acende alerta para empresas que dependem do movimento de turistas na Baixada Santista
O cenário econômico do turismo brasileiro ganhou um novo ponto de atenção nesta semana e pode ter reflexos importantes em cidades como Guarujá. Um levantamento divulgado pela FecomercioSP em 10 de setembro apontou que o crédito em atraso há mais de 90 dias nos segmentos de alojamento e alimentação chegou a aproximadamente R$ 3,2 bilhões em julho, o maior valor da série histórica. A taxa de inadimplência desses setores alcançou 9,1%, enquanto os juros elevados continuam pressionando o caixa das empresas. (FecomercioSP)
Para Guarujá, onde hotéis, pousadas, restaurantes, bares, comércio e serviços têm forte relação com o turismo, a notícia merece atenção. A cidade recebeu expectativa de cerca de 120 mil turistas durante o feriado de 7 de Setembro, com previsão de ocupação de aproximadamente 70% dos leitos hoteleiros. (Link Guaruja) A dúvida que surge para moradores e visitantes é direta: o aumento das dificuldades financeiras das empresas pode afetar preços, empregos e a estrutura turística de Guarujá nos próximos meses?
Juros altos aumentam a pressão sobre empresas do turismo em Guarujá
O levantamento mais recente da FecomercioSP mostra que o problema não está apenas na quantidade de dívidas, mas na dificuldade crescente das empresas para manter os pagamentos em dia. O estoque de crédito com atraso superior a 90 dias em alojamento e alimentação passou de aproximadamente R$ 2,9 bilhões em julho de 2025 para R$ 3,2 bilhões em julho de 2026, uma alta real de 10,1%. No mesmo intervalo, a carteira de crédito do setor cresceu somente 2,1%, indicando que o avanço da inadimplência não pode ser explicado simplesmente pelo aumento do volume de empréstimos. (FecomercioSP)
Esse movimento é especialmente relevante para destinos turísticos que dependem de períodos de maior procura para compensar meses mais fracos. Em Guarujá, restaurantes, hotéis, pousadas, estabelecimentos de alimentação e empresas de serviços formam uma cadeia que começa na hospedagem e chega ao transporte, comércio, lazer e atividades relacionadas às praias. Quando uma empresa enfrenta dificuldades para financiar estoque, pagar fornecedores ou investir em melhorias, o efeito pode aparecer de diversas formas, como redução de investimentos, adiamento de contratações e maior cautela na formação de preços. A própria FecomercioSP apontou que custos elevados, concorrência e dificuldade de repassar despesas aos consumidores estão entre os fatores que pressionam alimentação e hospedagem. (FecomercioSP)
O cenário também ajuda a explicar por que o desempenho positivo do turismo precisa ser analisado com cuidado. Segundo a FecomercioSP, o turismo brasileiro faturou R$ 143,1 bilhões no primeiro semestre de 2026, crescimento de 3,5% sobre o mesmo período do ano anterior e melhor resultado para um primeiro semestre em 15 anos. Ao mesmo tempo, a entidade destacou que o segundo semestre apresenta desafios relacionados aos custos, à mão de obra, à segurança e ao ambiente financeiro. (FecomercioSP) Para uma cidade como Guarujá, isso significa que aumento de visitantes não necessariamente representa crescimento proporcional da margem de lucro dos negócios locais.
Outro ponto importante é o comportamento das famílias e dos consumidores. Com crédito mais caro, parte dos visitantes pode reduzir gastos considerados não essenciais, encurtar estadias ou pesquisar mais antes de escolher restaurantes, passeios e hospedagens. Para o morador, a pressão também pode aparecer no comércio local, especialmente em períodos de menor circulação turística. O resultado é uma economia que continua movimentada, mas exige maior eficiência dos empresários para transformar o fluxo de consumidores em receita suficiente para cobrir despesas e investimentos.
Movimento de turistas ajuda, mas não elimina os desafios econômicos
Guarujá entrou em setembro com uma demonstração clara da importância do turismo para a economia municipal. Antes do feriado da Independência, a cidade trabalhava com uma expectativa de aproximadamente 120 mil visitantes, enquanto representantes do setor hoteleiro estimavam ocupação de 70% dos leitos. A Secretaria de Turismo também havia informado que as reservas antecipadas já chegavam a 50% dos meios de hospedagem consultados no início do mês. (Link Guaruja)
Esse fluxo movimenta uma cadeia muito maior do que os hotéis. O turista que chega ao município utiliza restaurantes, supermercados, lojas, estacionamentos, serviços de transporte, atrações e estabelecimentos próximos às praias. Por isso, cada período de alta demanda pode representar uma oportunidade adicional para pequenos negócios e trabalhadores que dependem direta ou indiretamente da presença de visitantes. Em uma economia litorânea, feriados prolongados e temporadas são importantes justamente porque concentram consumo em intervalos relativamente curtos.
O desafio está em transformar esses momentos de maior movimento em sustentabilidade durante todo o ano. A Prefeitura de Guarujá apresentou recentemente uma proposta de Plano Diretor de Turismo estruturada em cinco eixos, dez programas e 41 projetos, com medidas relacionadas à governança, inovação, tecnologia, sustentabilidade, acessibilidade, qualificação profissional e criação de novos produtos turísticos. A proposta também busca fortalecer o destino fora dos períodos tradicionais de maior procura. (Portal Guarujá)
Essa estratégia pode ter importância econômica justamente porque reduz a dependência de poucos feriados ou da temporada de verão. Quanto maior a capacidade de Guarujá de atrair visitantes em diferentes meses, maior tende a ser a possibilidade de hotéis, restaurantes e empresas de serviços distribuírem suas receitas ao longo do ano. Isso pode ajudar negócios a enfrentar períodos de menor movimento e diminuir a necessidade de recorrer constantemente ao crédito para manter operações e capital de giro.
Há ainda uma questão de competitividade regional. Guarujá disputa visitantes com outros municípios da Baixada Santista e com destinos do litoral paulista, o que aumenta a importância de infraestrutura, segurança, mobilidade, limpeza urbana e qualidade dos serviços. Investimentos públicos e privados nesses pontos não têm apenas efeito turístico: eles também podem melhorar o ambiente para pequenos empreendedores e trabalhadores locais. Em um momento de juros elevados, entretanto, o setor privado tende a ser mais seletivo nos investimentos, tornando políticas públicas de planejamento e infraestrutura ainda mais relevantes.
Obras, infraestrutura e planejamento podem fortalecer a economia local
A relação entre economia e infraestrutura ficou evidente em outra informação divulgada nesta semana sobre Guarujá. Dados publicados em 10 de setembro apontam que o município ampliou em 640,1% a captação de recursos do Fundo Estadual de Recursos Hídricos (FEHIDRO) entre 2021 e 2026. O valor passou de R$ 1,5 milhão em 2021 para R$ 11,1 milhões em 2026, e, segundo as informações divulgadas, os recursos deste ano serão destinados integralmente à execução de obras de drenagem e infraestrutura hídrica. (BS9)
Embora obras de drenagem não sejam uma política econômica no sentido tradicional, seus efeitos podem chegar diretamente à atividade comercial e turística. Alagamentos e problemas de escoamento da água podem prejudicar deslocamentos, interromper atividades comerciais, dificultar o acesso a estabelecimentos e afetar a percepção do visitante sobre o destino. Para o morador, a melhoria da infraestrutura também representa menor risco de interrupções e perdas relacionadas às chuvas. O investimento em prevenção, portanto, pode ser entendido como uma forma de reduzir custos futuros para a cidade e para empresas.
A documentação oficial do município também registra recursos do FEHIDRO destinados a projetos relacionados ao desassoreamento de canais e rios, incluindo o Rio do Meio, Rio Perequê, Crumaú, Acaraú e Pouca Saúde. Em decreto publicado anteriormente, a Prefeitura registrou crédito superior a R$ 1 milhão proveniente de repasses estaduais não reembolsáveis para elaboração desses projetos. (Prefeitura de Guarujá) No contexto atual, ações desse tipo ganham importância porque infraestrutura urbana e capacidade de resposta a eventos climáticos interferem diretamente no funcionamento da economia local.
O planejamento turístico segue a mesma lógica. Ao estabelecer projetos para qualificação, acessibilidade, sustentabilidade e inovação, o município pode criar condições para que Guarujá não dependa exclusivamente de sol, praia e feriados para movimentar sua economia. A diversificação de atrações e serviços pode aumentar o tempo de permanência dos visitantes e estimular novas oportunidades para empreendedores locais. A própria apresentação do novo plano municipal de turismo destaca a intenção de fortalecer o destino durante todo o ano. (Portal Guarujá)
Para o consumidor, o cenário também exige atenção. Juros elevados e custos maiores podem fazer com que empresas revisem preços, condições de pagamento e investimentos, enquanto visitantes tendem a comparar mais valores de hospedagem, alimentação e transporte antes de viajar. Para o comércio local, conquistar o consumidor passa cada vez mais por oferecer uma combinação de preço, qualidade e experiência. Em Guarujá, essa disputa ocorre não apenas entre estabelecimentos da própria cidade, mas também com outras opções da Baixada Santista e do litoral paulista.
O momento, portanto, não aponta para uma paralisação da economia turística de Guarujá, mas para uma fase em que crescimento e pressão financeira convivem. O fluxo de visitantes continua sendo uma importante fonte de renda, enquanto empresas enfrentam crédito caro, custos elevados e necessidade de manter competitividade. A capacidade do município de melhorar infraestrutura, ampliar o calendário turístico e criar condições para novos negócios será decisiva para transformar períodos de grande movimento em desenvolvimento econômico mais constante.
O cenário dos próximos meses dependerá da combinação entre demanda dos consumidores, comportamento dos juros, capacidade financeira das empresas e planejamento público. Para quem mora em Guarujá, isso pode significar mudanças graduais no comércio, na geração de empregos e na oferta de serviços. Para quem visita, a tendência é de um mercado cada vez mais atento à relação entre preço e qualidade. E, para a cidade, o principal desafio será aproveitar a força do turismo sem depender exclusivamente dos grandes feriados e da temporada de verão.
Fontes: FecomercioSP – inadimplência em hotéis, bares e restaurantes · Portal Guarujá de Turismo – Plano Diretor de Turismo · Prefeitura de Guarujá – Diário Oficial · Comitê de Bacia/FEHIDRO 2026

